As cócegas podem fazer rir, mas também podem irritar muita gente.

"Seja bem-vindo quem vier por bem!" e "se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente!"

Recomendação Sonora

Thursday, 5 June 2008

Anúncio 02

Antes de ser crítico, sei apreciar a beleza das produções que são feitas, apesar de ter consciência da mensagem que realmente está por trás das cores, sons e efeitos dos anúncios. Num Mundo capitalista, o Marketing é das áreas que mais tem evoluído, não só mexendo com os desejos e necessidades da população, mas entrando nas cabeças das pessoas subtilmente através de grandes jogos psicológicos.

Há certos anúncios que, pela sua vertente artística, me fascinam e muito me ensinam. Respeito imenso o trabalho desses artistas que defendem causas diferentes das minhas e tento aprender com eles. Aqueles que são realmente bons, incitam em mim sensações que me dão prazer e só por isso ganham a minha empatia. Estou a falar de muitos anúncios, mas em particular o novo anúncio da 02. Este anúncio foi lançado em Abril do corrente ano de 2008 e passa nos grandes ecrãs do cinema em Inglaterra - é capaz de passar na TV também, mas como não vejo, não posso garantir.

Se imaginarem uma sala escura, larga, com um ecrã gigante de alta definição de imagem e cor, juntamente com as colunas de som que ali fizeram magia, poderão sentir o mesmo que eu senti ontem ao ver este anúncio.

in Jornal Partido, 8 de Dezembro de 2034

A Coca-cola volta a subir na escala Económica empresarial distanciando-se mais que nunca da segunda companhia que a segue, o McDonald's.

Ontem, dia 7 de Dezembro de 2034, pelas 17:00, foi assinado nos escritórios da sede Nacional da Coca-cola o contracto de compra da Companhia Nacional de Águas. Por um valor astronómico de 4 trilhiões de Euros, a Coca-cola comprou a única concorrente que fazia obstáculo à sua uni-existência no Mercado de Líquidos.

Depois de em 2009 ter comprado a antiga marca Pepsi e em 2016 ter começado a trabalhar em co-operação com equipas de recolha de sangue e espécimes, a Coca-cola atinge o lugar mais alto de todos os Mercados Económicos desde o início da Civilização Humana. A empresa centenária, pelas palavras do seu supremo dono Miguel Sousa, afirma que "isto, antes de tudo, é mais uma prova de sucesso do Bem contra o Mal, aonde continuamos com a nossa luta incessável por uma Economia melhor, uma Economia Ambientalista".

Miguel Sousa é descendente directo do Pai Natal, o fundador da companhia, que a passos largos guia esta dinastia de empresários a um Marco Histórico que muito dificilmente deixará de estar presente nos livros do Ensino Básico de todas as escolas de todo o Mundo, como está há quase 10 anos. O trineto do Pai Natal recebeu apenas aos 3 anos de idade, a condecoração pelas mãos da Rainha Elizabeth IV, tendo sido o mais novo da História a ser nomeado "Cavaleiro do Exército Britânico". Aos 18 anos, o Papa João Paulo III santificou-o, dando origem a uma das maiores roturas na Igreja desde a Reforma Católica, e dando origem a uma nova religião. Miguel Sousa é hoje em dia, uma figura emblemática, um símbolo Mundial e um líder imbatível com os mais puros valores de Paz e União.

Está em vias de conclusão o projecto que já tem vindo a ser estudado pelos cientistas do Mega-grupo Coca-cola: espera-se que em 1 de Janeiro de 2040, todas casas terão acesso a Coca-cola nas torneiras, extinguindo, assim a água como a conhecemos da circulação nos canos. O preço da água já aumentou de 3 Euros para 5.50 e um dos sub-dirigentes do grupo, Ricardo Andrade, afirma que é "Uma vitória para o Mundo". Pelo mesmo ano, poderão também comprar outras torneiras com outras bebidas (por exemplo Gin, Fanta, Sprite, etc), já que todas pertencem à Coca-cola e haverá canalização para permitir o acesso mais fácil aos produtos fornecidos.

Em protestos das massas activistas nas ruas, uma florista afirma: "Isto é uma vergonha! Querem dar cabo do Planeta! Como é que vou agora regar as plantas?" ao que Ricardo Andrade respondeu que "crime é assassinar plantas cortando-as e comercializando as suas mortes".

Miguel Sousa afirma que "Com a Coca-cola não há necessidade de recorrer à água, melhorando o nosso Planeta Azul. A Coca-cola tem substâncias que melhoram a pele e a circulação sanguínea e que só por isso os nossos consumidores estarão sempre a beneficiar, quer a beber, quer a tomar banho - coisa que nunca aconteceu com a água."
Cientistas afirmam que a Coca-cola repõe os valores de açúcar no sangue e que tem havido um processo geral de melhoramento do produto, ultrapassando em todos os aspectos os benefícios que a água poderá trazer.

Para celebrar este marco de mais crescimento do Império Coca-cola, Miguel Sousa está a organizar uma festa a nível Nacional de comemoração no próximo dia 25 de Dezembro, em que todas as bebidas serão gratuitas das 00:00 até às 00:00 do seguinte dia 26. O Ministério marcou uma reunião para a próxima semana para discussão da mudança do dia 25 de Dezembro para feriado Nacional da Coca-cola.

Wednesday, 4 June 2008

Semana Santa

Esta semana é a negação da minha não-existência.

Sou o cego de olhos abertos que vai vendo pelos olhos de outros, falando o que os outros disseram, sentindo o que os outros sentiram. Penso com o coração e sinto pelas canetas das mãos dos outros. Vou à raíz da existência humana na cor da Natureza que se verga à força do vento, à luz da cor, fazendo-me esquecer que também sou filho e que um dia vou ser pai.

Sou o eterno velho branco da minha juventude que há tão pouco começou e está tão perta do fim. Sou velho de conhecimento, de sabedoria, de razão e sensatez. Sou velho por já ter sentido demais, e, por demais ter sentido, todos os dias morro um pouco mais.

Esta semana é a negação da minha não-existência.

Apesar da força do novo conhecimento e das formas mais belas que há no Mundo, sou preso à ignorância que me arrasta de novo para o sombrio da minha insanidade. A insanidade que tenho, não por ser culpado, mas por nunca a ter negado. A insanidade que me dá Paz, que me dá abstência de emoção neste quadro de cores vivas que me queimam os olhos.

As pessoas só se ligam quando estão sãs, quando se sentem seguras em confiar. As pessoas têm de ser sãs para crescerem fisicamente. Não basta ter o conhecimento e viver na loucura e rebeldia de guardar no peito a verdade que nos enlouquece. É preciso passar autógrafos, ser entrevistado e conhecido. Porque as palavras podem ser compradas, os pensamentos podem ser financiados e as ideias muitas vezes são postas no prego.

Tenho de existir esta semana, para poder continuar na minha não-existência. Abdicarei, vender-me-ei, a mim e ao meu saber, para poder continuar a ver apesar de cego. Posso trair-me por uma semana, mas eu sei que nunca estive à venda. Nunca.

Monday, 2 June 2008

Sunday, 1 June 2008

Quando é que se envelhece?

É através da lei dos contrastes que se tem a percepção da realidade.

Um menino veio ter com o seu avô e perguntou-lhe quando é que ficou velho e porquê. Uma pergunta mais inocente do que simples deste género é capaz de fazer com que um comboio de imagens passe na nossa cabeça, deixando uma poça de água dentro de nós, que incontrolavelmente despejaríamos em lágrimas. Lágrimas essas que seriam choradas, secadas, transformadas em nuvens, chovidas, nascidas de uma fonte, bebidas e tornadas a chorar por outra pergunta de outra criança. São as crianças que nos fazem chorar, as crianças, os loucos e os alterados por outras substâncias que fazem com que as pessoas regressem mentalmente à sua infância. E são sempre os sábios, os velhos, os cientes que choram. Choram por eles próprios, choram pelos outros, choram. E hão-de chorar sempre, porque a água tem de ser filtrada neste ciclo. Lá chorava o velho.

O menino não percebia o que se passava e afastou-se com um estranho sentimento de culpa com gotas de arrependimento e uma palhinha de sabor a incompreensão. Bebeu aquilo tudo de uma vez e afastou-se, num choque geraria um trauma – ver o avô chorar.

O velho, em solidão, recordou-se daquela noite em que se deitou na cama sozinho, já que a sua mulher estava na cozinha a fazer outras coisas. O velho deitou-se na cama e quis masturbar-se, para relaxar, tal como fazia nas noites em que vinha muito cansado da sua vida de jovem, trazendo-o um misto de Paz e Prazer numas gotas que mais tarde viriam a ser os seus filhos. Começou por lembrar-se da sua mulher, mas não conseguiu atingir a erecção. Talvez por ter dormido demasiados anos ao lado dela, ou talvez por ela não ser mais a mulher que foi um dia. Partiu, assim, com a sua memória para outra mulher que tinha conhecido quando era jovem. Mas nada.

Partiu para outra, e outra e mais uma, mas nada. Até que chegou a uma das suas grandes paixões da sua vida, outra mulher fabulosa. Mas ele tinha-a visto há dois anos, e estava velha. É quase sempre a última imagem que fica, nestas alturas, e como tal associou o seu corpo desnudo de 17 anos que várias vezes viu, àquilo que deve ser qualquer coisa parecida com o actual corpo da mulher. A erecção continuou como sempre estava: sem ter começado. Em pânico, fez uma passagem por todas as mulheres com quem teve relações, quer tenham sido dois encontros, beijos ou apenas uma carta com promessas que nunca se chegaram a cumprir. Nem assim. Naquela idade, já não resta muitas hipóteses, e fez a lista mental de todas as mulheres que conhecia, todas, até as menos atraentes, pensou numa a uma.

Este processo demorou horas e aquilo que começou por ser uma empresa com o objectivo de Paz e Prazer tornou-se uma guerra sanguinária entre o que precisava e as condições a que estava reduzido. Nisto, deu tempo para a mulher vir da cozinha, lhe dar o beijo de boa noite, ler o seu livrinho, dar outro beijinho de boa noite e finalmente adormecer – tal como fazia todos os dias há mais de 20 anos. O velho começou a chorar por não conseguir sequer masturbar-se. O velho chorava a altas horas da noite, na sua cama, com a mulher ao lado que dormia. Chorava de tal maneira que acabou por acordá-la. A mulher quis saber o que se passava, que não compreendia e que ele não lhe queria explicar, com o olhar fixado para o tecto, escorrendo lágrimas dos cantos dos olhos para os ouvidos.

Quando o menino fez aquela pergunta, todas estas memórias lhe passaram como um trovão em frente dos olhos, não assustando-o, mas aterrorizando-o por ele ter encontrado resposta à pergunta do menino mesmo sem ter de pensar/procurar nela. Foi naquela noite, na cama, que descobriu que era velho. Foi quando descobriu que era fisicamente incapaz de amar, incapaz de se amar a si próprio, como antes fazia… oh, e quantas vezes ele o fez!

Mas como explicar a um menino a importância da masturbação, do sexo, do amor carnal? Como fazer entender isso ao menino, se ainda não lhe foi dado aquilo que um dia lhe viriam a tirar, deixando-o na desgraça, como o seu avô ali estava: o apetite sexual.

O avô chorava. Por saber demais. E por não poder fazer nada.

- Francisco, volta ao avô, não ligues ao avô a chorar. Não tenhas medo. Tu também choras, não é?

- Sim, quando estou triste.

- O avô já parou de chorar, vês?

- Sim. Porque é que choravas?

- De alegria.

- De alegria? Eu quando estou contente, riu-me, não choro.

- De alegria, por um dia ter tido a tua idade e nunca ter imaginado que viria a ter um neto como tu. Amo-te muito.

- Eu também, avô.


Paz e Amor/Prazer é para todas as idades, porque "Na natureza, nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma" - Lavoisier. O velho percebeu, ali, que a pergunta não era "Quando é que se envelhece?", mas "Quando é que se deixa de Amar?".


Nunca. Diz sempre nunca!
"Ser é pensar e agir." - Leonardo Cascaes