As cócegas podem fazer rir, mas também podem irritar muita gente.

"Seja bem-vindo quem vier por bem!" e "se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente!"

Recomendação Sonora

Monday, 10 March 2008

Filhos da Folha de Papel

Eu nasci para morrer
Filho da folha de papel
Eu nasci para querer
Mas nunca ter

Matéria fora de si
Matéria fora do Mundo
Matéria para si
Matéria de vagabundo

Não tenho de gemer
Não tenho de sofrer
Não tenho de viver
Muito menos de sobreviver

Respirar o ar puro
Que a nenhum de nós pertence
Fazer
E nunca acontecer

Quadro de Som

Sunday, 9 March 2008

Curtas - Pound

O Branco

Tão velho e ainda tanta coisa para fazer
Vou atirar-me ao tempo
Deixar que me faça tremer
Para que eu chore Novembro

Limpar as ruas com o meu temperamento
Beijar o céu cinzento
Transformar as formas e as cores
Curar todas as feridas e dores

Mas é tudo tão grande
Tratar de um jardim
Selvagem verdejante
Que foi ficando assim

E eu sou só um
Pequeno mas instruído,
Atiro-me ao destino
De viver e morrer em jejum
Na ânsia por um lugar mais bonito.

O lápis

Ela sentou-se para desenhar. Agarrou no lápis e apontou para o papel. Antes de começar a fazer o rasto com o carvão na folha branca, virgem e sem vincos, pensou no que ia desenhar. Ela queria desenhar uma emoção, mas não sabia o qual. Lembrou-se de desenhar a frustração de não saber o que desenhar, começar por desenhar isso e levá-la a um nível mais avançado de riscos, talvez trouxesse-lhe a imagem daquilo que procurava. Como muita gente, ela procurava em si descobrir algo de novo, sem ter de ver outros desenhos, ou outras pinturas.

Só que ela nunca tinha desenhado na vida.

Pousou o lápis e parou para pensar porque é que não sabia desenhar e as outras pessoas sim. Porque é que era diferente, no que é que era diferente e como mudar isso. Viu que tinha dedicado mais tempo a fazer coisas que mais ninguém se interessa, coisas que não são pagas para ser feitas. Ela passava as tardes todas a fazer coisas do género, diferentes tipos de plantas, como a relva cresce diferente em cada jardim do bairro, como os pássaros têm sons diferentes, como uns voam mais altos do que outros, como o céu nem sempre é azul. Ela tinha dedicado a vida toda a fazer coisas que ninguém aprovava e que eram consideradas uma tonteirice de criança. Ela já era adulta, mas ainda vivia com os pais, solteira, sem filhos, virgem. Talvez por continuar a agir como uma criança.

Ela conheceu uma amiga que desenhava muito bem, que era um enorme talento, uma verdadeira artista. A amiga tinha desistido de desenhar, estava triste e revoltada. Ela quis saber porquê e a amiga explicou-lhe que tinha passado a maior parte da vida a fazer coisas como pintar árvores, flores, as mudanças do céu, os pássaros a voar. Mas que conhecia gente que só desenhava coisas escuras, mas que usavam cores brilhantes. A amiga que desenhava muito bem disse-lhe que essas pessoas estavam constantemente felizes, porque todos gostavam delas. Toda a gente dizia que eles desenhavam muito bem, e nunca se lembraram da amiga que desenhava muito bem. Diziam-lhe que ela não sabia desenhar. Mas a adulta, que vivia com os pais, solteira, sem filhos, virgem, sabia... que... e chorou.

Secando as lágrimas dos olhos, voltou a pegar na folha e no lápis, e começou a desenhar com força, com muita força, muita força, até partir o bico. Afiou o lápis e voltou a desenhar, continuava a fazer traços decididos e carregados, e partiu o bico outra vez. Afiou com raiva o lápis e cortou-se na lâmina. Sangrava, chorava e desenhava... e a folha registava tudo. Ia registando tudo o que ela ia lhe ia passando, até que ela partiu o lápis... partiu-o. O desenho ficou um presépio de almas penadas, simbolizando o trágico, o amargo e a destruição da última colheita.

A menina que desenhava bem olhou para aquilo tudo espantada. Levantou-se e correu para longe, para o adeus... com medo.

O reflexo

Ele não é aquilo que vê no espelho. Ele não é a pessoa que todos pensam que é. Todos pensam gostar ou saber, mas a verdade é que ninguém sabe quem ele é.

Cada vez que sai do banho, vê a nuvem no espelho, espelha reflexo embaciado. Essa núvem que dá temperatura ao corpo. Limpa o espelho. Nuvem que sai do corpo. Matérias em moléculas de ar a sair dos ombros para a casa-de-banho, fazendo-o sentir poderoso, no entanto acabado de nascer, nascido não-ele. Como é possível não nascer-se ele? Que mais poderia nascer ele, senão ele mesmo? Ele também não sabia.

Na sua análise de troca de olhares com o silêncio verificava se estava tudo em ordem. O papel prata ainda estava a cobrir as cameras ocultas nos cantos daquela divisão da casa. A porta trancada, e não se ouve ninguém a espreitar. A janela está aberta e coberta, para os satélites não conseguirem captá-lo. A respiração é quase parada... quase como se estivesse morto... lembrava-se dos dias de criança, das caras à volta dele, das sensações, das cores do passado. E a nuvem em que estava envolvido não era muito mais diferente daquela que entrava pelos seus ouvidos e se instalava na sua cabeça, nas suas memórias.

Ele tem alguém na cabeça, que não é ele. Alguém que não é ninguém. Ele não tem ninguém na cabeça. E isso só se percebe se se olhar profundamente nos olhos, nos seus olhos que alucinam depois de tomada a libertadora viagem sem sair do sítio. Ele também se olha nos olhos, também se enfrenta e procura. Não faz questão de procurar, apenas quer relacionar-se com alguém, quer envolver-se consigo mesmo, já que mais ninguém lhe resta. Olha-se no espelho que espelha a sua imagem física, alterada, mudadas as cores, as formas e os sons. O espelho fala com ele. O espelho fala-lhe dos sonhos que ele teve. O espelho sai da parede e senta-se no tampo da sanita. O jovem atira-se para o chão agarrado aos cabelos, às orelhas para calar a voz do espelho, daquela figura quadrimensional. Bate com a cabeça na pia e começa a sangrar... verde... amarelo... áspero... sangue. Sangue que cobre o corpo e o chão. O corpo nú e o chão vestido de toalhas. E deixa-se estar ali a sangrar.

O espelho levanta-se e vai tomar duche, enquanto continua a falar com ele. É nessa altura que passa um rato a subir a parede. E bichos, que não são aranhas, mas têm pernas... muitas pernas, muitos bichos, muito pretos e pequeninos, fazendo nuvens na parede. Os bichos entram e saiem do buraco de onde vêm... o espelho toma duche, esfrega-se nos seus órgãos genitais que não tem, lava a imagem do que reflecte, lavando a casa-de-banho, a casa, o Mundo todo, tudo o que reflecte, menos a pessoa que está na cabeça daquele jovem que sangra no chão.

O jovem levanta-se. Sobre para a sanita e tentar trepar a parede. Sente as suas mãos a agarrarem o liso e a fixarem-se. O liso é que se fixa ao seu corpo. Dança, rebola e corre pela parede, tecto, mas quando tenta chegar ao chão cai para cima. O jovem tenta aproximar-se do espelho, que ainda toma banho, mas não consegue, porque a sua imagem é uma violação física. O espelho ri-se e continua a falar com a voz do povo, que é a voz da razão. A razão sem nexo, sem verdade, mas que é a da maioria. A razão que é tudo menos racional, muito menos racionável. E o jovem atira-se para o chão, em desespero, esperando alcançá-lo, ao que é surpreendido quando cai no chão abrindo um buraco na testa, ao lado do outro que sangrava há mais tempo. Mas deste buraco sai um guincho, como quem está a fazer chá num pote... O jovem senta-se em cima da pia e encosta-se, com a mão na testa para tentar calar aquele grito de agonia que lhe sai da testa. Ao encostar-se, fica colado à parede. Anexado por completo, no lugar aonde o espelho estava. Os parafusos, ainda na parede, saem do estuque, rompendo os braços, as costas, as pernas, a nuca do jovem. O espelho saiu do banho, viu-se no jovem. E saiu, apagando a luz nas costas.

Ele não continua sem saber quem é, o que é... Só sabe que dói ser assim e que ninguém o ajuda.

Insignifincantas-me!

Pousas na minha janela.
Deixo-te caminhar sobre a parede transparente do meu quarto.
Tu que estás próxima de me tocar, de me ferrar.
Quero libertar-te, sem te magoar.
Quero dar-te a mão, para me a poderes beijar.

Abro a janela, mas tu não vais... não voas.
Na tua fraqueza exploro agora toda a tua solidão.
Filmo as tuas asas que te são inúteis.
Sofre que gravo tudo para mostrar ao Mundo.

Filmo um futuro cada vez menos distante.
Nascer é a sorte de todos.
Envelhecer é a maldição dos que nasceram.
Morrer é a dávida de quem envelheceu.

Morrer em directo é fama.
É um balde de pipocas que vai sendo devorado.
É o refrigerante de milhares.
Morrer em directo é estenderes a mão e ninguém te acudir.

Sente... sente isto... sente!