Tuesday, 26 February 2008
Curtas - A Alma do Negócio
Como parei de publicar os Textos Soltos da Águia Branca, comprometo-me agora a publicar curta-metragens todas as Segundas-feiras. (para animar também o espírito do blog com um pouco de 7ª arte)
"Impossível" é uma palavra
Ele caminhava confiante, fazendo o Mundo girar por baixo de si, ao ritmo dos seus passos.Os enormes edifícios coloridos ficaram pequenos e transparentes. Os verdes campos desse país ficaram cada vez mais extensos. De tal forma infinitos se tornaram esses campos que seriam capazes de dissipar toda aquela energia. Toda aquela felicidade podia perder-se, mas em vez disso, espalhavam-se pelos verdes abraçando os campos, o país, a ilha, o mar e o Mundo.
Deixava sementes de plantas de cor rara, para compensar os edifícios - agora incolores e derrotados - que ainda insistiam em erguer-se. Esses edifícios que representam as ruínas do Passado, a queda de um Império forte que trabalhou até ao limite das suas peças, que forçosamente e um pouco contrariadas continuavam a mexer-se.
Era o início de uma nova Era. O começo de uma época onde as pessoas ficariam mais humanas e sensíveis, voltando a caminhar para o Horizonte felicidade há muito tempo esquecido. E ele caminha confiante, com a bandeira erguida, guiando um povo que seguia nas suas costas. Com um batalhão de gente desempregada, caminhava atraindo também os ainda empregados. E foi primeira vez, em muito tempo, que a Mãe-Natureza voltou a confiar o Mundo a uma pessoa da raça Humana.
As pétalas do meu jardim indicam-me o caminho
E se Jesus fosse revisor de comboio?Hoje vi O Escolhido a picar bilhetes e a vendê-los a quem ainda não os tinha comprado. Era uma pessoa simpática, sorridente e bem-disposta. Interrompia a conversa com os viajantes para abrir as portas do comboio nas paragens que ia fazendo pelo caminho. Depois voltava ao tema em que estava, rodeando-se de desconhecidos, e, transformando-os magicamente em amigos efémeros. Não há nada de hipócrita em animar gente estranha e criar um laço - por mais pequeno que seja - com eles. Para quê deixar a solidão falar, quanta há tanta gente com quem comunicar?
Esta é a solidão de um Messias, nos tempos modernos, cuja Maquinaria o impede de criar raízes sólidas, encontrando a sua Terra nas paisagens que as vidraças do comboio alcançam. Vive, assim, em viagem constante, a trocar o buraco nas almas das pessoas por um furo pequenino num bocado de cartão. E tudo o que precisa é de um sorriso e um obliterador.
Não falemos dos pais do Messias que sempre o verão como o filho rebelde mal-sucedido. Falemos antes nas duzentas pessoas que estão neste comboio - que pode descarrilar a qualquer momento -, agora também preparadas espiritualmente para o Escuro e Desconhecido. E tudo por causa de uma pessoa que faz laços pequenos. Pequenos, mas bem feitos!
Eterno Amargo
Todos os ares emanados pelas nuvens do céu, juntamente com a transpiração das plantas e as exalações do mar, concentram-se na vidraça da janela no primeiro dia do eterno infinito. Assim, ela abriu a janela para que esse ar entrasse. Ao abrir a janela, as cortinas dançaram para na passagem desse ar que procurava qualquer coisa indeterminada. O ar entrou batendo em todas as paredes do seu quarto, num ziguezague louco de felicidade, atingiu os móveis, as roupas, os livros e tudo o mais que lá havia. Momentos antes de entrar nas narinas da velha senhora, já não estava mais em forma de eternidade, mas numa eternidade inconfundivelmente pessoal – na sua eternidade, individual e intransmissível. Com beijos de tudo o que há de bom do Mundo, mais de tudo o que era seu, entrou nos seus pulmões, activando a circulação sanguínea, o coração e a vontade. Foi tomar banho.Pouco tempo depois, já estava à porta de casa, nas suas humildes roupas. Carregada de futuro no coração, atirou-se às ruas com o seu carrinho de compras e papéis para ir ao banco. Quis ir primeiro ao banco, para poder levantar o dinheiro necessário para ir às compras. Também estava interessada em ver se essa reforma – o que pagam como recompensa por se ser uma peça da Grande Maquinaria durante anos – pela qual lutou toda a vida já tinha caído na sua conta, ou se teria de usar as poupanças que fez ao longo dos anos. As poupanças que ganhou perdendo momentos de vida mais feliz, momentos que os outros tiveram por ser de outra condição. Mas a culpa não é dos outros; ela é que é de outra condição. No entanto, o banco estava fechado e teve de usar o dinheiro que obteve através de todas as coisas que teve de abdicar durante a vida. E apesar do sentimento de pobreza e de irrealização pessoal, foi contar as moedas e viu que tinha pouco, mas que pelo menos ainda tinha.
As lojas estavam fechadas. Fechadas para ela, de propósito, até parecia. Nunca percebemos bem os horários destas lojas, que funcionam todas de acordo com os movimentos da batuta do maestro. Lojas que dependem de alguém. E lojas de quem todos os alguéns dependem. A velhinha olhou para as montras à procura de algo para comprar. Assim, poderia saber até melhor quanto tinha de levantar no banco quando ele abrisse, e até poupava um pouco da sua eternidade escolhendo previamente aquilo que pensava comprar. Mas as lojas não vendem nada do que ela precise, e nem sequer vendem os produtos que ela procura. Porque as lojas não se podem dobrar aos caprichos dessa pequena minoria que insiste estar na margem da resistência.
A velha, então, parou para olhar à volta. Parou para ter resposta. Parou para receber o ar que tinha recebido em casa. E só havia silêncio. Não havia pessoas, nem animais, nem abandonados, nem mendigos, nem oxigénio. Um silêncio que não era paz. Um silêncio que ninguém poderá quebrar. Porque não podemos ser mais papistas que o Papa e correr contra a direcção que essa Máquina - para fazer vento e tempestades - está apontada.
Fiquei preocupado com a senhora e pousei o livro da história que estou a escrever para lhe dizer, porque é que a ocasião se relaciona com ela deste modo:
Tu és cor-de-laranja. Não és como as pessoas normais. E eu, no início da tua história, jamais disse que era de dia, que estava bom tempo, ou que o Mundo queria pedir perdão pelo que te fez a vida toda. Porque, na verdade, aquele vento que sentiste ao abrires a janela do teu quarto, só aí é que o sentes. Só... e aí. Está de noite, está frio, e nem por isso serás aceite.
E como me disse o meu avô quando lhe disse que não aguentava mais viver em Inglaterra a passar fome, isolado, com sentimentos auto-destrutivos e de auto-consumo disse à velha: “Tu hás-de conseguir. Eu fiz mais do que tu e também consegui. Não serás a primeira, nem a última a passar por isso”. Ninguém disse que com a tua reforma viria a bonança da vida. Por isso, entrega-te à tua eternidade... já que é tudo o que conquistaste... e tudo o que te resta.
A todos os meus leitores
A todos os meus leitores, quero fazer falar aqui, fora da língua em que geralmente comunico. Vou ser breve e pragmático.Antes de mais, quero agradecer a todos os comentários de apoio. Se não agradeci, foi porque, como muita gente que não comenta os meus textos - por não saber o que dizer -, também eu não comento os vossos comentários. Continuem a ser livres - até para não comentar -, porque a vossa liberdade inspira a minha. Obrigado a todos.
A Águia Branca acabou no meu blog. Como já afirmei no post anterior, vou substituir as Segundas-feira de poemas dela, por curtas. No entanto, ela não acabou. Felizmente, e graças aos vossos comentários que a motivaram, ela formou o seu próprio blog. Mais um cantinho para ser visitado, especialmente por aqueles que gostaram de a ler. http://livredemim.blogspot.com/
Quero também falar-vos, especialmente para aqueles que gostam de me ler, de uma das minhas inspirações. É o blog de uma jovem actriz em ascenção, onde escreve os seus textos com cores fortes no quadro que quer pintar. Aparentemente sem significados, os seus textos transbordam de símbolos e mensagens que muito poucos percebem. Eu também não alcanço tudo o que ela escreve. No entanto, acho fascinante, inspirador e motivo para ser promovido. A quem quiser pensar um pouco, fica aqui mais uma receita: http://semimaginacaonenhumaparaumendereco.blogspot.com/
E lembrem-se: quebrem a corrente do silêncio... Break On Through (to the other side). Não se fiquem por ler... Leiam alto para os pobres que não sabem ler!
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