As cócegas podem fazer rir, mas também podem irritar muita gente.

"Seja bem-vindo quem vier por bem!" e "se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente!"

Recomendação Sonora

Monday, 15 September 2008

O lixo do chão

Vivi muito, minha querida. Vivi muito.

Um dia fui jovem, um dia fui forte e ousado.
Dominava muito bem o Mundo que me rodeava e tinha tudo o que queria.
Sempre que vinha com os rapazes para uma bebida, eu bebia sempre mais, amiga.
Eu era o primeiro a beber, o primeiro a roubar as garrafas e correr para as ruas.
Gostava de me exaltar, de me mostrar, porque eu tinha de me mostrar, de partir as garrafas na rua! Parti garrafas, cuspi no chão, urinei... lembro-me de derrubar caixotes do lixo, de espalhar bem o lixo pelo chão da rua, minha companheira.

Uma vez vi um daqueles homens metidos a esperto na rua a mandar-me limpar o que tinha sujado. Ainda correu atrás de mim. Pobre coitado! - muito longe ficou ele de me tocar.
Eu uma vez desafiei o Mundo todo, eu podia, naquela altura.

Agora, estou aqui contigo, nestas ruas... Nas mesmas ruas que um dia eu sujei. Vêm ali mais rapazes... mais jovens com a nesna idade que eu tinha antes, quando era mais novo. Vêm aí para derrubar caixotes, gritar, e desafiar-nos, amiga vassoura.

Não olhes, é muito duro, é muito duro. Eu sei que devia opor-me, mas eu percebo o lado deles... E além disso eles são mais, eu já não tenho a força que tinha... Aguenta, amiga, meu amor, não olhes... Não penses no que irá acontecer. Aconteça o que acontecer, eu estarei cá para te ajudar a limpar.

Saudade do Presente

Aos 20 anos estou num dos pontos mais importantes da minha vida.
Jamais serei mais belo, mais bem constituído, mais sedutor, mais forte e mais motivado.
Sinto e sei que estou a viver os dias dos quais os mais velhos querem voltar ou fingem esquecer.
Sou glorioso neste meu tempo que me foi dado - não sei se como recompensa pelas minhas infância e adolescência ou pela vida toda que aí vem.

Somos bem dispostos, alegres e energéticos. Temos sorrisos para os desconhecidos, e muito poucos ainda são os medos. Estou sem dúvida no meu próprio apogeu. E nisto tudo há uma grande angústia de saber que um dia vou sentir saudades, de saber que não estou a conseguir aproveitar tudo, e de - ao mesmo tempo - querer equilibrar as coisas doseando-as... como se eu pudesse guardar alguma da minha juventude para depois.

Mas a vida é um desiquilíbrio. A morte estabelece o equilíbrio. E até esse dia, eu continuarei aqui, com outro tipo de beleza, constituição, sedução, força e motivação, mas sempre com os meus pensamentos.

Tuesday, 26 August 2008

Quem conhece o seu passado, conhece o seu futuro

Quando eu nasci, subiu um anjo que me disse o que se ia passar na minha vida, que me anunciava os dias de amanhã.

Deus olhava.

Cresci para duas pessoas que me chamavam de filho e que me fizeram crescer da forma mais cruel, da mesma maneira com que eu forço as pessoas que quero que cresçam. Fizeram-me de mim aquilo que eu quisesse.

Enquanto Deus olhava.

Fiz amigos, virei-me contra a família e encontrei refúgios desleais. Troquei família por amigos. Aqueles que, ao contrário da família, "podemos escolher".

E hoje estou com Deus. Ele está comigo e eu com ele. Somos a mesma pessoa. Ele relembra-me a conversa do anjo. É o momento de ruptura, de separação.

Amanhã vou trocar os amigos que ganhei, vou perder aqueles que gostavam de mim por estatísticas e audiências. Vou ganhar falsos amigos que farão tudo para me agradar.

E Deus não olhará mais.

Depois vou experimentar, experimentar, desrespeitando o meu corpo, a minha mente e o meu nome. Vou acabar sozinho, no meio desses meus novos amigos, sedentos, que me consumirão nos meus apogeus de fraqueza. Serei consumido pela minha própria ambição.
Perderei tudo para todos e de mim só ficará... não ficará nada.

Deus já se tinha ido embora.

E eu que tudo tive - que fui avisado por um anjo logo quando nasci - acabarei na miséria por ter escolhido um caminho que não foi feito para mortais, como eu. E estou na fase de ruptura, de separação. É aqui que posso fazer a diferença, que posso evitar o que já foi dito.

Mas por querer ser Deus, vou seguir em frente e fazer todos os erros que me vão definir. Posso ter nascido prisioneiro, mas hei-de morrer livre!

Friday, 22 August 2008

Tenho vindo a descobrir cada vez mais que tenho andado no optimismo negativo. O meu cinismo filosófico e confiante é de raízes tramatizadas e não por causa do conhecimento. Sinto que ando à procura da definição da minha maneira de ser e que não procuro o que defino. Isto é basicamente o meu ponto fraco que se poderá tornar em forte, caso eu continue a conhecer, tal como já comecei.

Descobri que escrevia sempre sobre temas menos positivos, com uma forte crítica - mais de revolta interior, do que propriamente com soluções aos problemas. Bonito, mas sem charme. A elegância verdadeira está nos temas realmente positivos, naqueles em que se ignoram/esquecem os menos bons. Pensar positivo é ver coisas boas em tudo.

A tal linha ténue que separa ignorância do verdadeiro conhecimento.

E ando aqui a escrever para ninguém me perceber, porque assumo que escrevo para mim. A sociedade não pode ser mudada, não pode ser constantemente criticada, porque a maior parte das coisas nela são muito boas. Não me posso dar ao luxo de criticar tudo e todos, como se todos se tratassem de ignorantes e eu de um iluminado. Não sou melhor ou pior do que ninguém.

Não sou vítima, nem produto, muito menos um orientador. Já fui, já me senti assim. Hoje em dia, sou uma peça dessa sociedade que me comanda. Descobri que o verdadeiro caminho não é lutar, mas sim vencer pela minha integração positiva nessa massa de gente tão igual e diferente de mim.

E se ninguém percebeu o que acabei de escrever, não foi por mal. Simplesmente ignorem-me, porque esta minha pseudo-existência de quem "pensa que pensa e acha que existe" não tem um significado forte - não pode ter - para ninguém. Isto é uma luta comigo mesmo. Quero vencer-me de tal maneira que não sinta a necessidade de lutar com mais ninguém.

Tuesday, 5 August 2008

Mens Sana In Corpore Sano

Deitei-me em cima dela e comecei a remar para fora. A espuma das ondas varria o inside e dificultava que eu fosse lá para fora. A primeira onda que rebentou lá ao fundo e veio arrastando-se aproximava-se. Fiz o primeiro bico de pato. Fui arrastado um pouco para trás, mas segui em frente, remando. Mais vale fazer o bico de pato e andar um pouco para trás, do que nem sequer fazê-lo. No surf, não temos muitas alternativas. Depois de várias ondas, com os ombros doridos de tanto remar, com a respiração ofegante, mas sempre em cima da prancha, consegui finalmente chegar ao outside calmo.

E tão calmo que é o outside.

O outside é o santuário de todos aqueles que aguardam que os messias venham para os purificarem. As ondas vêm como vagas de ressurreição antes da morte, como máquinas do tempo que poucos podem experimentar. Ao vir a onda, começo a remar. Remo, remo, remo e apanho... sinto que a prancha continua a deslocar-se na água, mesmo comigo tendo parado de remar. É nesta altura que me levanto e corto a onda, numa velocidade instável mas suave.

E é assim, também o levantamento do alter às 7:00, com as corridas de bicicleta matinais, os treinos de artes marciais às tardes e finalmente as duas refeições por dia, que o meu corpo volta a mudar. Fica mais forte. Mais seguro, mais saudável, mais atraente ou - deverei dizer? - menos repulsante. Tenho plena consciência que este corpo não me pertence, simplesmente pela sua efemeridade. E nem fico mais sábio por este "aculturamento" físico, muito pelo contrário - poderão dizer - que fico mais perto dos cegos que ficam hipnotizados pelos espelhos que cantam as cantigas da moda.

Eu sou fraco porque tenho um corpo.

Cuidar do meu corpo dá-me uma paz qualquer. Uma paz que, sei muito bem, não é minha. É nestas pequenas coisas que eu descubro que não gosto de mim, e cada vez menos dos outros. Mas fazer desporto e ser fisicamente é activo é uma grande paixão que só igualada a uns bons pastéis de nata, um valente cozido e uns maravilhosos batidos que engordam. Se o meu corpo fosse meu filho, eu seria um pai irresponsável. Mas os meus filhos amar-me-iam.

Monday, 4 August 2008