No âmbito da disciplina Acting, entre muitos outros tipos de pesquisa de interpretação para construção de uma personagem - sendo a minha um paquistanês simpático que ainda hoje me ofereceu o jantar - escrevemos uma carta a uma pessoa. As indicações que tivemos foram: escrevê-la a alguém muito querido com quem não falamos há vários anos contando algo de exceptional que se tenha passado na última semana. Claro que escrevemos em personagem, para uma pessoa que muito provavemente nunca nasceu, mas para reenforçar a parte emocional e interior da nossa personagem. Como a carta nunca vai ser enviada ou, se eu fosse um aluno que gostasse de arquivar este género de papéis, posta num dossier, vou escrevê-la aqui. Há uma certa angústia em que escrever uma carta estando na pele de outra pessoa. Maior angústia é nunca chegar a enviá-la.
28th January 2009
Dear Ali,
Last week me and family move new house. Family bigger and Sara and me have two children. Many boxes of things to put in new house. In new house find box with pictures and address of you. Very long time no see you, since me and Sara come to England, 10 years ago. Miss you very much! Me and Sara have children to take care. I manager chicken shop and Sara cleans house and cooks and go shopping.
Family no more in Islamabad, you know, mum and dad and brother move to America 5 years ago, so no coming back anymore. Really want to see you and tell my stories of new life. Me not go to Pakistan no more. Maybe you come visit us and maybe work in chicken shop and maybe with me. Very long hours and very good money.
Women are very beautiful and clean, but very hard to marry. In truth English people not like Pakistan because think we are terrorist with bomb. We just want good life, no pain and good family. Me kids, Jim and John, born here in England and we put English names because me and Sara love them and want them to be accepted. And have better life.
Write me, I miss you!
Salamaleikum, my friend.
SHAKIL
Fiz este texto há umas horas e li-o em frente ao grupo com a minha melhor pronúncia e emoção de uma pessoa que está descalça nas brazas. Horas mais tarde, com a cabeça mais fresca e em paz a tocar guitarra, percebo que qualquer dia serei eu a escrever esta carta. E, para ser sincero, também não sei se algum dia será enviada.
Wednesday, 28 January 2009
Sunday, 25 January 2009
Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que tristeza.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor.
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que tristeza.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor.
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro
Friday, 23 January 2009
Dead Man Sitting
hmm
No âmbito da disciplina de Teatro Contemporâneo, resolvi adiantar-me para o próximo ano lectivo, aonde começaremos a criar o nosso próprio trabalho (espectáculos) com a supervisão de um encenador qualificado. hmm... Pensei em fazer um musical, já que é uma coisa que vende bem e que, talvez também por isso, me irrita. Resolvi começar a compor músicas, para propor ao encenador que vier, um musical, pelo grupo escrito.
Para quem não sabe, o nosso ano, apesar de ter todo misturado três cursos principais (Acting, Community e Contemporary Theatre) - os tutores acreditam que as bases são as mesmas para qualquer um dos cursos, por isso primeiro ano igual para todos - comecei a falar com alguns colegas alunos do mesmo curso que eu. Temos gente motivada e que odeia a escola, achando que este primeiro ano é basicamente uma palhaçada, apesar de estarmos a aprender imenso. Temos gente que toca instrumentos, que teve canto lírico, dança, etc... Basicamente, temos encenadores, músicos, coreógrafos e luminotécnicos, para além de actores que somos todos. Numa forma de protesto contra a escola e a tão chamada "indústria", começamos a juntar grupos antes mesmo de a escola nos enfiar numa sala e nos chamar "turma". Ninguém do Teatro Contemporâneo tem pachorra para musicais e pantomimes, apesar de sermos capazes de apreciar um trabalho de qualidade, mas gostamos todos de música e principalmente de mudança.
A música que se segue basicamente relata a história de um tipo hmm que está basicamente na cadeira eléctrica. É um rascunho, obviamente, porque a música ganha todo o seu poder cantada duas vezes, se for por um coro com umas harmonias. Os slides no final das frases dá um cheirinho do que poderá ser. hmm uh Pronto, acho que é isto. Capaz.
Ah, chama-se "Dead Man Sitting", porque há um excelente filme chamado "Dead Man Walking", que é o que se gritava nos USA quando um homem começava a pisar o seu corredor da morte, antes de ser electrocutado - há um filme com esse nome. O Musical todo terá novos ritmos, já que não serei o único instrumentista, virados para o Jazz, flamenco, blues e pop. Uma coisa que não acontece no West End. Metem-me nojo e é a partir disso que eu trabalho.
I cannot see you through your eyes
The good seeds you don't want.
Deep deep inside a thousand million miles
Of naked land to plant.
Your sweaty mind keeps on running
Your thoughtful body sits on a chair.
The bones are cracking, the skin is burning
And the wind away blows your hair.
Do you remember being old
Wearing clothes and all that money buys?
You got the profit from what you've sold
And signed a contract with Paradise.
I cannot see you through your eyes
The good seeds you don't want.
Deep deep inside a thousand million miles
Of naked land to plant.
No âmbito da disciplina de Teatro Contemporâneo, resolvi adiantar-me para o próximo ano lectivo, aonde começaremos a criar o nosso próprio trabalho (espectáculos) com a supervisão de um encenador qualificado. hmm... Pensei em fazer um musical, já que é uma coisa que vende bem e que, talvez também por isso, me irrita. Resolvi começar a compor músicas, para propor ao encenador que vier, um musical, pelo grupo escrito.
Para quem não sabe, o nosso ano, apesar de ter todo misturado três cursos principais (Acting, Community e Contemporary Theatre) - os tutores acreditam que as bases são as mesmas para qualquer um dos cursos, por isso primeiro ano igual para todos - comecei a falar com alguns colegas alunos do mesmo curso que eu. Temos gente motivada e que odeia a escola, achando que este primeiro ano é basicamente uma palhaçada, apesar de estarmos a aprender imenso. Temos gente que toca instrumentos, que teve canto lírico, dança, etc... Basicamente, temos encenadores, músicos, coreógrafos e luminotécnicos, para além de actores que somos todos. Numa forma de protesto contra a escola e a tão chamada "indústria", começamos a juntar grupos antes mesmo de a escola nos enfiar numa sala e nos chamar "turma". Ninguém do Teatro Contemporâneo tem pachorra para musicais e pantomimes, apesar de sermos capazes de apreciar um trabalho de qualidade, mas gostamos todos de música e principalmente de mudança.
A música que se segue basicamente relata a história de um tipo hmm que está basicamente na cadeira eléctrica. É um rascunho, obviamente, porque a música ganha todo o seu poder cantada duas vezes, se for por um coro com umas harmonias. Os slides no final das frases dá um cheirinho do que poderá ser. hmm uh Pronto, acho que é isto. Capaz.
Ah, chama-se "Dead Man Sitting", porque há um excelente filme chamado "Dead Man Walking", que é o que se gritava nos USA quando um homem começava a pisar o seu corredor da morte, antes de ser electrocutado - há um filme com esse nome. O Musical todo terá novos ritmos, já que não serei o único instrumentista, virados para o Jazz, flamenco, blues e pop. Uma coisa que não acontece no West End. Metem-me nojo e é a partir disso que eu trabalho.
I cannot see you through your eyes
The good seeds you don't want.
Deep deep inside a thousand million miles
Of naked land to plant.
Your sweaty mind keeps on running
Your thoughtful body sits on a chair.
The bones are cracking, the skin is burning
And the wind away blows your hair.
Do you remember being old
Wearing clothes and all that money buys?
You got the profit from what you've sold
And signed a contract with Paradise.
I cannot see you through your eyes
The good seeds you don't want.
Deep deep inside a thousand million miles
Of naked land to plant.
Wednesday, 21 January 2009
Sopas
Quando estás de rastos, mas vais à escola fazer as aulas, porque no sistema educativo em que te encontras dois dias sem ir à escola é chumbar o ano, e, encontras a professora que lidera o primeiro ano inteiro, aquela que te faz pensar que nunca hás-de finalmente chegar ao segundo ano, por ela não gostar de ti, tais as divergências artísticas - enfim - pensas que vais ser outra vez pisado, apesar de já estares acostumado.
Mas se ela te dá a sua sopa, para levares para casa, sabes que dentro daquela caixa há mais que comida.
Mas se ela te dá a sua sopa, para levares para casa, sabes que dentro daquela caixa há mais que comida.
Tuesday, 20 January 2009
Dói-me a cabeça!!!!
hmm
Se vicarious é hoje, katharsis é teatro. Amanhã o hoje passa a ontem e o teatro continua a ser teatro. Sou uma prostituta de pernas abertas aonde me deixo entregar a sentimentos que ficam cá dentro, corroendo, corroendo...
Conheci um demagogo que tem "um lugar sem portas". Entra sem ter de parar para procurar chaves. Chaves para quê, se nada há a esconder? Mas há quem entre com má vontade e destrua o que sempre lá esteve, mas que demora tanto tempo a descobrir.
Num Mundo sem amor aonde descubro que sofro de SIDA, perco a vontade de ter desejos. Qual vontade, qual destino! Eu sou o carrasco do tempo e a única coisa que amo é o nevoeiro que nas minhas memórias mergulha, transformando tudo numa nuvem de várias cores, minhas e tuas, antes de serem travadas nos pulmões de alguém que nunca antes tinha fumado.
Se vicarious é hoje, katharsis é teatro. Amanhã o hoje passa a ontem e o teatro continua a ser teatro. Sou uma prostituta de pernas abertas aonde me deixo entregar a sentimentos que ficam cá dentro, corroendo, corroendo...
Conheci um demagogo que tem "um lugar sem portas". Entra sem ter de parar para procurar chaves. Chaves para quê, se nada há a esconder? Mas há quem entre com má vontade e destrua o que sempre lá esteve, mas que demora tanto tempo a descobrir.
Num Mundo sem amor aonde descubro que sofro de SIDA, perco a vontade de ter desejos. Qual vontade, qual destino! Eu sou o carrasco do tempo e a única coisa que amo é o nevoeiro que nas minhas memórias mergulha, transformando tudo numa nuvem de várias cores, minhas e tuas, antes de serem travadas nos pulmões de alguém que nunca antes tinha fumado.
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